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Diário de Pandemia | CELEBRAR É RESISTIR: A dicotomia de ser e continuar sendo negro


O amor precisa vencer! Segundo o líder Nelson Mandela, “Ninguém nasceu odiando ninguém”. Então podemos aprender a amar qualquer pessoa. Em tempos de celebrações e de renascimento, vamos celebrar as conquistas. E vamos renascer como outros negros. Negro mina, negro Congo ou negro Angola; negros reis e rainhas; Nagôs ou iorubás; afrofuturistas ou geração tombamento... Renascer é preciso! Celebrar é resistir!

A população negra celebra a resistência de estar viva e não envenenar o prato do colonizador na ceia de Natal. Palavras violentas? Violência? Lamentavelmente é a vida cotidiana do negro e da resistência negra na história de lutas, sabotagens, revoltas, quilombos, capoeiras e racismo. Não! Os negros não aceitaram a história de vencedores. Celebremos o que resistimos. Resistimos o que celebraram.

Resistência é uma forma de não aceitar e contar a história com outras cores. Celebrar é festejar com algo que tem sentido e significado para uma história de África, história de reinados, de obras de artes de reis escravizados no Brasil, como Chico Rei. Celebrar é não apagar a história do negro como identidade nacional.

Resistir é aceitar a importância e o significado dos MCs Racionais, que foram e continuam sendo sucesso com produção independente representando e contando a história da periferia e, principalmente, do jovem negro.

Celebrar Karol Conká, mulher negra no RAP, como líder da “geração tombamento”, que por meio da estética jovem recria novos padrões que incomodam e geram o conflito na identidade nacional brasileira e, principalmente, na identidade estética do negro brasileiro.

Resistir é dizer que ninguém faz samba porque prefere, como dizia João Nogueira, ou candeia ao dizer que “de qualquer maneira meu amor eu canto.” As letras estão totalmente relacionadas à realidade do povo negro. E Cartola cantando “Alvorada” destaca nossa dor e nossa cura no samba comemorado no mês de dezembro.

Celebrar é ter os sambódromos como a nossa Broadway! O mundo se rende ao carnaval brasileiro, palco da diversidade e do multiculturalismo. Não é possível negar as raízes do samba que vieram da cultura negra.

Resistir é dançar afrodiasporicamente. Eu diria dançar com os pés no chão. Não, por não termos sapatos especializados, mas por manter nossos troncos e cabeças conectados com a terra. E assim “nossos corpos são aculturados pelo movimento e a gravidade”, segunda a Antropóloga Doutora em Dança pela Unicamp Luciana Ramos. Celebrar a dança e se aculturar e empoderar-se desses movimentos como danças cotidianas e tradicionais, danças circulares como o jongo de Rio e São Paulo, o maracatu de Pernambuco, a congada e outras danças de todo o Brasil.

Resistir é ser impactado pelas influências internacionais dos Panteras Negras, Malcon X e Martin Luther King. Com isso, o Movimento Negro no Brasil colaborou com a criação da Lei Afonso Arinas (Lei 1.391), que proíbe qualquer ato de discriminação racial no Brasil, em 1951.

Outro resultado da influência internacional são os blocos afros na Bahia, como Ilê Aiyê, Afoxé, Teatro Negro e todas as religiões de matriz africanas sobreviventes e cultivadas pela oralidade e sobrevivente da violência e intolerância religiosa.

Celebrar as mulheres negras como Antonieta de Barros (primeira mulher negra parlamentar), Ruth de Souza (primeira mulher negra atriz, fundadora do teatro negro), Sulei Carneiro (filósofa, escritora e fundadora do grupo Geledés, Instituto da Mulher Negra). É uma resistência, além do racismo, ao Machismo.

Resistir é escrever nossas histórias. Invisibilidade? Não dá mais, assim como o livro “Quarto de despejo: o diário de uma favelada”, da autora negra Maria Carolina de Jesus, que foi censurado na ditadura. Resistir é a Lei 10.639 que obriga o ensino de cultura negra na escola, promovendo a oportunidade para pretos e brancos conhecerem a riqueza da herança histórica que o Brasil tem da África.

Celebrar é reconhecer os livros de Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro, que estão muito bem recebidas no mercado editorial e estão resistindo ao epistemicídio (apagamento de negros e negros antes do tiro).

Celebrar é resistir! É tão dicotômico, pois não dá para separar muito bem a luta e a festa, a dor e a alegria. Uma mistura de energia africana no jeito de cantar, de falar, de dançar e de viver que incomoda muita gente. Somos filhos da África antes do navio negreiro; uma África de reis e rainhas e não só uma África de miséria causada pela colonização europeia.

Desejamos uma visibilidade plural em todas as instâncias e de todas as formas. Desejamos viver de fato a pluralidade. O nosso sonho é ser negro e sermos o que desejarmos ser. Quando esse sonho for realizado, poderemos até nos dar ao luxo de parar de falar de racismo.

Ubuntu. Axé!

Juntos somos mais fortes! Boas festas!




Por Terezinha Ribeiro
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