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Destaque | TEREZINHA RIBEIRO - Afro-descente brasileira em Atlanta
Tuesday, 16 June 2020 00:00


Paulista, a nossa “Terry”, como é chamada desde o Brasil, é confundida com “americana” por muitos brasileiros, seja por ser negra, irreverente, livre, contagiante e inspiradora, como dizem seus amigos e conhecidos; ou por sua versatilidade no seu tato com amigos, amor pela educação e pelas artes.

20 anos lecionando, incentivando a leitura e promovendo projetos culturais em São Paulo capital como bibliotecária, a brasileira “Terry” é bacharel formada pela UNESP (Universidade Estadual Paulista de São Paulo). É também contadora de histórias prolífica, compositora de samba, agitadora cultural e comunitária, e promotora da cultura afro-brasileira. Um exemplo disso é que ela é engajada em saraus e eventos de capoeiras como instrumento de luta e reconstrução da identidade racial por meio da cultura yorubá (dialeto da Nigéria).

Terezinha é idealizadora do grupo “Nega de estampa”, composto por Luana Bayo e Aline Marea, que, em espaços culturais em São Paulo, dá vida a histórias de mulheres negras por meio do canto yorubá, samba e jongo. Em 2012 ela veio passar férias em Atlanta, ficando na casa de sua amiga de 20 anos, Luciana Stone. A brasileira se apaixonou pela cidade de Atlanta, muito conhecida como a “meca negra” dos Estados Unidos, sentiu-se em casa com a receptividade na cidade e com a cultura afrodescendente, tanto foi assim que o primeiro ponto turístico que fez questão de visitar foi o Martin Luther King Center. Não pensou muito: pediu demissão por telefone; deixou os livros, a família, a sala de aula e os espaços culturais para começar aqui um novo projeto de vida: pesquisar sobre ser negro nos Estados Unidos e ser negro no Brasil.

“Terry” trabalhou de tudo aqui na terra do Tio Sam: foi cozinheira, consultora para lojas brasileiras, house cleaner, intérprete e professora de português e inglês. Atualmente ela presta serviços a pesquisadores acadêmicos que não falam português. Engajada com universidades e apoiadores da cultura brasileira, teatros, concertos e produção de eventos em Atlanta como o House Music Movement, Jazz Music, Fella Kuti e Buteco Café Bar. Como ela mesma diz, “o samba é a sua reza.”

Bem ativa, ela participou de debates na Spelman College sobre falando sobre representatividade no Brasil, e na Irmandade Delta Sigma Theta, em Atlanta, no Dia da Conscientização Cultural, além de eventos na Georgia State University. E apesar de todas as turbulências que estamos vivendo, Terezinha Ribeiro foi nomeada neste ano a madrinha do Livro “O Black Power de Akin”, de Kiusam de Oliveira, aqui nos Estados Unidos.

Para conhecermos mais sobre Terezinha, confira a seguir o bate-papo da Cia Brasil Magazine com a brasileira.


CIA BRASIL: Você sente diferença em ser negra aqui e no Brasil? Por que você decidiu desenvolver o projeto “Being Black Here and Being Black in Brazil”?

R: O que senti quando pisei em Atlanta e visitei Martin Luther King Center foi muito forte a conexão espiritual e étnica que tive. Sendo uma mulher negra numa cidade negra, me senti melhor representada que no Brasil quando vi negros em todos os setores da sociedade. Isso me trouxe esperança que é possível sonhar em ter uma vida mais justa e digna para negros mesmo que você tenha uma pele mais escura. Por isso e por uma busca pessoal de me entender como mulher negra e meu papel na sociedade decidi desenvolver esse projeto, que tem como foco entrevistar afrodescendentes que têm experiencia vivida nos dois países (Brasil e Estados Unidos). Debatermos questões relevantes que possam contribuir encorajando e empoderando os afrodescendentes a entenderem melhor como foram os seus respectivos processos de luta e busca de oportunidades e desenvolvimento de talentos. Cada entrevistado compartilha as suas trajetórias pessoais vivendo em países diferentes. Não podemos ser exceções! A comunidade afrodescendente precisa ser potencializada!


CIA BRASIL: O que mais a marcou entre as diferenças em ser afrodescendente aqui e no Brasil?

A base para ser afrodescendente aqui é ter uma “gota de sangue negro” em sua descendência. Não importa a cor da pele ou a cor do olho: você é negro. A lei de segregação racial de Jim Crow conduziu historicamente esse fundamento aqui nos Estados Unidos. No Brasil, a base e fenótipo (a marca), se a pele for escura, você é negro. A segregação dos afrodescendentes aqui nos foi violenta, mas fez a comunidade negra americana se empoderar como classe racial. No Brasil, nenhum brasileiro queria ou ainda não quer se identificar como negro pois estaria associado a escravos. Ter a pele mais clara aqui ou no Brasil acaba sendo fatores determinantes de privilégios; mas continuamos sendo negros.

No Brasil também tivemos segregação, mas a invisibilidade do negro, o abandono dos escravos após a abolição, projeto de branqueamento do Brasil, o não-acesso dos negros à educação escolar por muitos anos, a subalternização e o racismo estrutural promovem violentamente a opressão da identidade e exclusão do negro como ser humano, sociopolítica e culturalmente. Vale lembrar que o Brasil foi uns dos países que mais traficou africanos na diáspora das Américas, e foi o último a abolir a escravatura.


CIA BRASIL: Como você vê a questão racial nesses diferentes contextos?

R: No Brasil, o racismo não é falado, mas nós o vivemos o tempo todo nas relações humanas. É um grande desafio enfrentar um racismo que é subjetivo nos brasileiros. É como se fosse lutar com algo que não se vê e não existe. O racismo é uma construção social criada por narrativas eurocêntricas, que visam manter um sistema opressor contra o afrodescendente. O racismo, lamentavelmente, se naturalizou, se institucionalizou e se estruturou na economia, na política e em toda a sociedade para a violenta exclusão do negro. Segundo a historiadora e filósofa Lelia Gonzalez, o racismo precisa ser pensado a partir das relações subjetivas e subalternas dos afrodescendentes e das relações intensificadas dos brancos narcisistas para conseguirmos romper as estruturas violentas que marcam a nossa sociedade. O problema do racismo é de todos nós.


CIA BRASIL: E o impacto da morte de George Floyd e os protestos repercutindo no mundo que têm ocorrido após isso, como você tem visto?

R: O racismo existe no mundo inteiro. O que muda é como as sociedades naturalizam o racismo dos negros por meio do extermínio, do encarceramento em massa, do desemprego, da falta de oportunidade e da falta de representatividade no mercado, nas mídias, na política e em todas os segmentos sociais.

Comparando com outros países, o racismo no Brasil é extremamente violento e desigual. Aceitar que o racismo seja natural e normal é estar contra direitos básicos, por exemplo o direito à visa como o caso de George Floyd, nos seus quase nove últimos minutos de vida, ou de João Pedro, que perdeu a vida dentro de casa no Brasil. O sistema de segurança pública mata mais a população negra, pois o racismo é estrutural.


CIA BRASIL: Como é seu relacionamento com a comunidade negra brasileira e americana em Atlanta?

R: Amo meus amigos americanos e brasileiros. Adoro celebrar a vida e lutar pelo meu povo preto. Não tenho vergonha. Tenho honra. A resistência negra é incrível diante de um sistema opressor. A minha cultura preta me fortalece. Alguns convidados do meu projeto “Being Black Here and Being Black in USA” são expoentes brasileiros em Atlanta.

Respeito a diversidade e assim como espero respeito mútuo quando falo dos meus irmãos negros e da nossa luta. É preciso respeitar a experiência de cada pessoa. Todos somos humanos e somos subjetividades complexas, podemos aprender outras formas de termos dignidade humana sem destilar ódio, rancor e ignorância.

Não podemos achar racismo normal. Devemos ter mente mais aberta, promover a comunidade negra, dar mais oportunidades aos menos privilegiados, respeitar manifestações de matriz Africana, conhecer a história do Brasil, mudar as narrativas reproduzidas historicamente postuladas e ler autores negros. Seremos uma nação mais justa se todos estiverem dispostos. Todos podemos fazer algo, seja dentro de casa, no ambiente de trabalho, no bairro… Ignorar o racismo não ajuda ninguém. Precisamos de parceiros e assim seremos mais fortes. Isto que a Cia Brasil Magazine está fazendo, de dar oportunidades para a comunidade negra falar de suas pautas, já é uma grande ação. Estamos juntos e precisamos entender quem somos.

Muito obrigada! Abraços a todos e podem me escrever se precisarem de qualquer ação em que eu possa contribuir com a comunidade. Quando nos ajudamos, nos fortalecemos! @Terezinha Ribeiro Instagram: tmjribeiro




Da Redação

Last Updated on Tuesday, 16 June 2020 20:38
 
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